Reflexões sobre a quinta dor de Maria

Quinta dor de Maria
Quinta dor de Maria

Por Santo Afonso de Ligório. Essa é uma coleção de artigos sobre as sete dores de Maria. Neste texto falaremos das reflexões sobre a quinta dor de Maria.

Quinta dor de Maria: Morte de Jesus

Maria assistiu à agonia de seu Filho na cruz

Aqui temos a contemplar uma nova espécie de martírio. Trata-se de uma mãe condenada a ver morrer diante de seus olhos, no meio de bárbaros tormentos, um Filho inocente e diletíssimo. “Estava em pé junto a Cruz de Jesus, sua Mãe” (Jo 19,25). É desnecessário dizer outra coisa do martírio de Maria, quer com isso declarar São João: contemplai-a junto da cruz, ao lado de seu Filho moribundo e vede se há dor semelhante à sua dor. Demoraremo-nos a considerar essa quinta espada de dor que transpassou o coração de Maria: a morte de Jesus.

Quando nosso extenuado Redentor chegou ao alto do Calvário, despojaram-no os algozes de suas vestes, transpassaram-lhe as mãos e os pés com cravos, não agudos, mas obtusos (segundo a observação de um autor), para maior aumento de suas dores, e pregaram-no à cruz. Tendo-o crucificado, elevaram e fixaram a cruz e o abandonaram à morte. Abandonaram-no os algozes, mas não o abandonou Maria. Antes ficou mais perto da cruz para lhe assistir à morte, como ela mesma revelou a Santa Brígida. Mas de que servia, ó Senhora minha, irdes presenciar no Calvário a morte de Vosso Filho? pergunta São Boaventura. Não vos deveria reter o vexame, já que o opróbrio dele era também o vosso, que lhe éreis a Mãe? Pelo menos não deveria reter-vos então o horror ao delito de criaturas que crucificavam o seu próprio Deus? Mas, Ah! o vosso coração não cuidava então da própria, e sim da dor e da morte do filho querido. Por isso quisestes assisti-lo e acompanhá-lo com vossa compaixão.

Ó Mãe verdadeira, diz o Vulgato Boaventura, ó Mãe amante, que nem o horror da morte pode separar do Filho amado!

Mas, ó meu Deus, que doloroso espetáculo! Na cruz, agonizando, está o filho e junto à cruz a Mãe agoniza também, toda compadecida das penas desse Filho. O lastimoso estado em que viu Jesus moribundo na cruz, revelou-o Maria a Santa Brígida, dizendo: “Estava meu Jesus pregado ao madeiro, saturado de tormentos e agonizante. Seus olhos encovados estavam quase cerrados e extintos; os lábios pendentes e aberta a boca; as faces alongadas, afilado o nariz, triste o semblante. Pendia-lhe a cabeça sobre o peito; seus cabelos estavam negros de sangue, o ventre unido aos rins, os braços e as pernas inteiriçados, e todo o resto do corpo coalhado de chagas e de sangue”.

Todas essas penas de Jesus eram outras tantas chagas no coração de Maria, observa Pseudo-Jerônimo. Aquele que então estivesse presente no Calvário, diz Arnoldo de Chartres, veria dos altares onde se consumavam dois grandes sacrifícios: um era o corpo de Jesus, outro era o coração de Maria. Mais me agradam, porém, as palavras de São Boaventura, declarando que só havia um altar: a cruz do filho onde a Mãe era sacrificada juntamente com o Cordeiro Divino. Por isso pergunta-lhe: “Ó Maria, onde estáveis? Junto à cruz? Ah! com maior razão digo que estáveis na mesma cruz, imolando-vos crucificada com Vosso Filho”. O Pseudo-Agostinho assevera: A cruz e os cravos feriram ambos, o Filho e a Mãe; juntamente com o primeiro foi também crucificada a segunda. O que faziam os cravos no corpo de Jesus, prossegue o Vulgato Bernardo, operava o amor no coração de Maria. De modo que, enquanto o Filho sacrificava o corpo, a Mãe sacrificava a alma, como se expressa São Bernardino.

Maria não pôde aliviar as penas de seu Filho

Fogem as mães da presença dos filhos moribundos. Quando, porém, uma mãe é obrigada a assistir um filho em agonia, procura dar-lhe todo alívio possível. Ajeita-o na cama, para que fique mais a gosto, e dá-lhe algum refresco. Desse modo a pobrezinha vai disfarçando sua dor. Ah! Mãe de todas a mais aflita! ó Maria, a vós é imposto assistir Jesus moribundo, mas não vos é facultado procurar-lhe alívio algum.

Maria ouve o filho dizer que tem sede, sem que lhe seja permitido dar-lhe um pouco de água para dessedentá-lo. Pode dizer-lhe, apenas, conforme as palavras de S. Vicente Ferrer: “Meu filho, tenho tão somente a água das minhas lágrimas”. Vê como seu pobre Jesus, pregado àquele leito de dores por três cravos de ferro, não podia achar repouso. Queria abraçá-lo para consolá-lo, e para que ao menos expirasse em seus braços, mas não podia fazer. Nota que seu filho, mergulhado num mar de angústias, procura quem o conforte, segundo a predição de Isaías: Eu calquei o lagar sozinho… Eu olhei em roda e não havia auxiliar; busquei e não houve quem me ajudasse (63, 3 e 5). Mas que consolação podia ele achar entre os homens, se todos lhe eram inimigos? Mesmo pregado na cruz, uns blasfemavam dele e outros o escarneciam: E os que iam passando blasfemavam dele (Mt 27,39). Outros lhe diziam no rosto: “Se és filho de Deus, desce da cruz” (27,40).

Desafiavam-no alguns: Salvou a todos e a si mesmo não se pode salvar… Se é o Rei de Israel, desça agora da cruz (27,42). Além disso, a Santíssima Virgem revelou a S. Brígida: “Ouvi alguns dizerem do meu filho que era um ladrão; outros, que era um impostor; outros, que ninguém merecia tanto a morte como ele. Esses insultos eram para mim espadas de dor”.

O que mais aumentou, contudo, a dor de Maria, na sua compaixão para com o filho, foi ouvir-lhe a queixa: “Meu Deus, por que me desamparastes?” (Mt 27,46). Palavras foram essas que nunca mais me saíram da mente, disse a divina Mãe a Santa Brígida. Assim a aflita Mãe via Jesus atormentado por todos os lados. Queria aliviá-lo e não podia fazê-lo.

Maior era ainda o sofrimento, ao ver que com sua presença aumentava a pena do filho. Daí, pois a frase de Vulgato Bernardo: “A plenitude das dores do coração de Maria derramou-se como uma torrente no coração de Jesus. Sim, Jesus na cruz sofria mais pela compaixão de sua Mãe, que por suas próprias dores. Junto a cruz estava a mãe, muda de dor, vivia morrendo, sem poder morrer”. Jesus Cristo, assim refere Passino, revelou a Bem Aventurada Batista Varano de Camerino, que nada o fez sofrer tanto como a comiseração de sua Mãe ao pé da cruz, e que por isso morreu sem consolação. E conhecendo a bem-aventurada, por uma luz sobrenatural essa dor de Jesus, exclamou: “Senhor, não me faleis dessa vossa pena, que eu não posso mais!”

Maria ao pé da cruz é nossa Mãe espiritual

Pasmavam as pessoas que então consideravam essa Mãe, diz Simeão Fidato de Cássia, por verem-na quedar-se silenciosa, sem uma queixa ou lamento, no meio de tamanha dor. Mas, se os lábios guardavam silêncio, não o guardava contudo o coração. Pois a Virgem não cessava de oferecer à Divina Justiça a vida do Filho pela nossa salvação.

Por aí vemos o quanto cooperava pelos seus sofrimentos para fazer-nos nascer à vida da graça. E se nesse mar de mágoas, que era o coração de Maria, entrou algum alívio, então este único consolo foi certamente o animador pensamento de que, por suas dores, cooperava para nossa eterna salvação. O próprio Salvador revelou a Santa Brígida: “Minha Mãe tornou-se Mãe de todos no céu e na terra, por sua compaixão e seu amor. Com efeito, outro sentido não tinham as palavras com que Jesus se despediu de sua Mãe. Como derradeira lembrança deu-nos a ela por filhos, na pessoa de São João: “Mulher, eis aí o teu filho” (Jo 19,26). Começou desde então a Senhora a exercer conosco esse ofício de Mãe estremecida. Atesta São Pedro Damião (assinala Salmeron) que estando por isso Maria entre a cruz do Filho e do Bom Ladrão, por suas preces converteu e salvou este último. Assim o recompensou por serviços prestados outrora, quando a Sagrada Família procurava o Egito. Nessa ocasião mostrara-se o bom ladrão prestimoso e afável, conforme contam vários autores. E a Santíssima Virgem continua e continuará sempre a exercer este ofício de Mãe desvelada.

“Reflexões sobre a quinta dor de Maria” é um dos artigos da série. Para ver os demais já publicados, acesse aqui

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