Reflexões sobre a quarta dor de Maria

Quarta dor de Maria
Quarta dor de Maria

Por Santo Afonso de Ligório. Essa é uma coleção de artigos sobre as sete dores de Maria. Neste texto falaremos das reflexões sobre a quarta dor de Maria.

Quarta dor de Maria: Encontro com Jesus caminhando para a morte

  1. Como o amor é também o sofrimento de uma mãe

Para avaliar a grandeza dessa quarta dor de Maria perdendo seu filho pela morte, devemos – na frase de São Bernardino – representar-nos vivamente o amor que a tal Mãe consagrava a tal Filho.

Todas as mães sentem como próprias as dores dos filhos. A mulher cananeia, quando pediu ao Senhor lhe livrasse a filha do demônio, disse tão somente: “Senhor, tem compaixão de mim; minha filha está atormentada pelo demônio” (Mt 15,22).

Que mãe, porém, jamais amou a seu filho, quanto Maria amou a Jesus? Era-lhe Jesus Filho e Deus ao mesmo tempo. Que viera ao mundo para atear em todos os corações o fogo do amor divino, foi o que o próprio Salvador protestou: “Eu vim trazer fogo à terra; e que quero se não que ele se acenda?” (Lc 12,49). Ora, de que chama devia ter ele abrasado o coração de sua Santa Mãe, tão puro e limpo de todo o afeto mundano? Em suma, como o disse a Santíssima Virgem a S. Brígida, seu coração, pelo amor, estava unido completamente ao de Seu Divino Filho.

Este misto de Serva e Mãe, de Filho e Deus, ateou no coração de Maria um incêndio composto de mil incêndios. Porém em mar de dores converteu-se toda essa fogueira de amor, quando chegou a dolorosa Paixão de Jesus. Escreve por isso São Bernardino: “Se ajuntássemos as dores do mundo, não igualariam todas elas às penas da Virgem Gloriosa”. Segundo a sentença de Ricardo de São Lourenço, “tanto maior foi o seu sofrimento vendo padecer o filho, quanto maior lhe era a ternura com que o amava”. E isso especialmente ao encontrá-lo com a cruz às costas, rumo ao Calvário. Vamos contemplar agora essa quarta espada de dor.

  1. Agonia da Virgem no começo da Paixão de seu Filho

Inundados de lágrimas andavam os olhos de nossa Mãe, ao ver chegar o momento da paixão e ao notar que faltava pouco tempo para perder o seu filho. Um suor frio lhe cobria o corpo, causado pelo vivo terror que a assaltava à ideia do próximo e doloroso espetáculo. Assim lemos nas revelações de S.Brígida. Finalmente chegou o dia marcado e Jesus despediu-se, chorando, de sua Mãe, antes de ir ao encontro da morte. O Ofício da Compaixão de Maria, que figura entre as obras de São Boaventura, assim descreve o procedimento da Santíssima Virgem na noite em que foi preso o Salvador:

“Passastes em claro a noite, enquanto repousavam os outros. Pela manhã, vieram os discípulos, uns após os outros, trazer-lhes notícias de Jesus, cada qual mais aterradora”. Verificaram-se então as palavras de Jeremias: “Chorou sem cessar durante a noite, e as suas lágrimas correm pelas faces; não há quem a console entre todos os seus amados (Lm 1,2)“. Lhes falavam dos maus-tratos feitos a Teu filho, em casa de Caifás. Lhes descreviam os desprezos recebidos no palácio de Herodes. Mas deixo tudo para chegar ao nosso ponto. Finalmente veio João e anunciou a Maria que o iníquo Pilatos tinha condenado Jesus à morte da cruz. De juiz injustíssimo o chamo eu, porque o iníquo condenou o Senhor com os mesmos lábios que lhe reconheceram a inocência, diz São Leão Magno. Ah! Mãe dolorosa, disse-lhe João, já vosso filho foi condenado à morte; já o levam para o Calvário carregando ele mesmo a cruz aos ombros. Assim escreveu depois no seu Evangelho: “E levando a cruz aos ombros, saiu para aquele lugar que se chama Calvário” (Jo 19,17). Se quereis vê-lo, Senhora, e dar-lhe o último adeus, vinde comigo à rua por onde deve passar.

  1. Encontro de Maria com seu filho

Partiu Maria com São João. Da passagem do Filho não lhe faltavam os rastros de sangue pelo caminho, conforme Ela mesma disse a S. Brígida. Boaventura Baduário fala de um atalho que a Mãe aflita tomou para ficar depois esperando numa esquina pelo Filho atribulado. Aí estava à espera dele, quando foi reconhecida pelos judeus e deles teve de ouvir injúrias contra seu amantíssimo Jesus. Talvez tivesse de ouvir até motejos contra si mesma. E ai! Que martírio lhe não causou a vista dos cravos, dos martelos, das cordas, funestos instrumentos da morte do Filho! Em lúgubre desfile, passavam eles diante da Mãe de Jesus. Meu Deus! Que espada de dor transpassou então a alma dessa Mãe dolorosa! Mas já desfilaram o arauto, e os instrumentos do martírio, os oficiais da justiça. Maria ergue os olhos e vê… ó Deus, um homem, na flor dos anos, todo coberto de sangue e de chagas, da cabeça aos pés, coroado de espinhos, carregando às costas um pesado madeiro. Olha-o e quase não o reconhece mais. Tem de exclamar com Isaías: “Vimo-lo, e não tinha perecença do que era (53,2)”. As feridas, as contusões e o sangue enegrecido desfiguravam-no de tal modo que se lê: “Seu rosto se achava como que encoberto e parecia desprezível, por onde nenhum caso fizemos dele” (Is 53,3). No entanto o amor o revelou a Maria. Tendo-o reconhecido, que temor e que amor transpassaram seu coração materno! Assim geme São Pedro de Alcântara em suas meditações: “De um lado desejava contemplá-lo, de outro não tinha coragem de olhar seu rosto, tão digno de comiseração. Fitaram-se, finalmente“. Como se lê em S. Brígida, “O filho afastou dos olhos o sangue coalhado que lhe impedia a vista, então Mãe e Filho fitaram-se! Ó céus, que olhares cheios de dor! Transpassaram, como setas, esses dois corações que tanto se amavam”.

Margarida, filha de Tomás Morus, encontrando o pai que era levado ao cadafalso, apenas pôde exclamar duas vezes: Meu pai, meu pai! e caiu-lhe aos pés desmaiada. Maria, à vista do filho que caminhava para o calvário, não desmaiou. Não era conveniente que a Mãe de Deus perdesse o uso da razão, como diz Suárez. Não morreu, porque o Senhor a reservava para maiores aflições. Embora não morresse, padeceu, entretanto, tormento suficiente para lhe dar mil mortes. Queria a Mãe abraçar o filho, mas os algozes injuriosamente a repeliam, e empurravam para diante o acabrunhado Salvador. E Maria o foi seguindo. – Eis a descrição que da cena nos dá um autor sob o nome de Santo Anselmo.

  1. Maria segue Jesus até o Calvário

Ah! Virgem Santíssima, aonde ides? Ao Calvário? Tereis ânimo de ver pregado à cruz Aquele que é vossa vida? Moisés falou como um profeta: e a tua vida estará suspensa diante de ti (Dt 28,66).

Faz S. Lourenço Justiniano dizer a Jesus: “Ó minha Mãe, não venhais comigo; aonde vais? aonde pretendes ir? Se me acompanhares, será atormentada pelo meu, e eu pelo teu suplício!” Entretanto a amorosa Mãe não quer abandonar a seu Jesus, embora vê-lo morrer lhe deva causar acerbíssima dor. “Adiante vai o Filho, e atrás segue a Mãe para ser crucificada com Ele”, diz Guilherme, abade.

Escreve São João Crisóstomo: “Até das feras nós nos compadecemos. Víssemos uma leoa acompanhando seus leãozinhos à morte, e mesmo dessa fera teríamos compaixão. e não nos apiedaremos de Maria, que vai seguindo o Cordeiro Imaculado, levado ao Suplício? Participemos, pois, de sua dor; com ela acompanharemos seu Divino Filho, levando pacientemente as cruzes que nos manda o Senhor“. Pergunta São João Crisóstomo: “Por que razão quis Jesus Cristo sofrer sozinho nas outras dores, e somente nesta aceitar que o ajudasse o Cirineu a levar a cruz?” E responde: “para ensinar-nos que só a cruz de Jesus não bastará para a nossa salvação, se não carregarmos também a nossa com resignação até a morte.”

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