Nova ou Verdadeira Eva?

Nova Eva
Nova Eva

Devotos associam Maria a Eva desde o século II. Mas será que Maria é a nova Eva que voltou, ou é a única e verdadeira Eva?

Para melhor enxergarmos isso, imaginemos uma corda com vários nós. Há duas pontas. De acordo com a teoria da recirculação de Irineu, Eva, em uma ponta da corda, deu o primeiro nó e todas as outras gerações foram dando outros em seguida. Quando chegou Maria (a outra ponta da corda), desfez-se aquele primeiro nó e todos os demais foram se desfazendo junto com ele.

É sobre isso que vamos estudar.

Os mais antigos registros dessa comparação a gente encontra em Justino, falecido em 165 DC, em Irineu, falecido em 202 DC e no evangelho segundo Filipe.

O Evangelho apócrifo de Filipe diz: “Adão foi feito por duas virgens: o Espírito e a Terra virgem. Por isso, Cristo nasceu da Virgem, para dar remédio ao pecado ocorrido no começo”. Justino disse: “Se é por meio da Virgem que Cristo se fez homem, é com o intuito de que, através do mesmo caminho em que a desobediência, nascida da serpente, teve a sua origem, se encontre também a solução”. Irineu disse: “Eva, ainda virgem, fez-se desobediente e tornou-se para si e para todo o gênero humano causa de morte. Maria, virgem obediente, tornou-se para si e para todo o gênero humano causa de salvação”.

Sobre a teoria da recapitulatio ou recirculação que falamos no começo do artigo, foi Irineu de Lyon quem a formulou. De acordo com o Santo, a história em círculo começa com Eva e vira com Maria. Para ele, o que foi ligado pela incredulidade é desligado pela fé. Sendo assim, Maria passa a ser “causa de salvação para todo o gênero humano”.

O mesmo se diz no texto armênio chamado Epideixis, que se lê “foi por meio de uma virgem desobediente que o homem foi ferido, caiu e morreu; igualmente é pela virgem que obedeceu a palavra de Deus, que o homem encontrou a vida”.

Sobre essa teoria, José Cristo Paredes diz: “A recirculação não só desata o que foi atado, mas devolve às gerações a vida que Eva lhes tirou”.

Mais tarde, Epifânio, em 377 DC, concedeu a Maria o título de “mãe dos viventes”, segundo a fórmula de Gênesis 3:20 e a igreja, tempos depois, a nomeou co-redentora.

Redenção significa recuperar o que foi perdido ou resgatar a um preço adequado, como diz Salvatore.

A redenção foi o preço pago a muito custo por Cristo, cabeça dos homens, a fim de resgatar o que, com o pecado, acabou com a graça da união com Deus. E Maria, da mesma forma, é co-redentora porque cooperou desde antes do nascimento, consentindo na encarnação, gerando, alimentando, educando e sofrendo tanto quanto o filho no calvário e na cruz.

Isso pode ser confirmado pelas belas palavras de São Irineu: “O pecado do primeiro homem foi reparado pela reta conduta do Primogênito, e a prudência da serpente foi vencida pela simplicidade da pomba, e assim ficaram rompidos os laços que nos mantinham unidos à morte”.

“Jesus foi o Novo Adão na cruz; Maria, a nova Eva na anunciação”, disse Crisóstomo.

E o Santo foi ainda mais fundo:“Virgem, madeiro e morte foram os símbolos da nossa ruína. A virgem era Eva. O madeiro era a árvore. A morte era a condenação de Adão. Mas eis aqui de novo a virgem, o madeiro e a morte. Lá eram símbolos de ruína. Aqui se transformaram em símbolos de vitória. porque em lugar de Eva, está Maria”.

E de onde vem a ideia de verdadeira Eva?

Principalmente com Epifânio de Salamina em 360 DC. De acordo com ele:

“Mesmo com as palavras bíblicas – és terra e para a terra retornarás – (GN 3,19), Eva até hoje é chamada de Mãe da humanidade, pois dela nasceu todo o gênero humano desta terra. Mas Eva se converteu para os homens em causa de morte porque por meio dela a morte entrou no mundo. Maria, por sua vez, foi causa de vida porque por meio dela a vida eterna chegou a nós, pois o filho de Deus veio ao mundo e – onde abundou o pecado superabundou a graça – (Rm 5:20)”.

A palavra “Eva” significa cheia de vida na língua hebraica. Adão a nomeou porque traria vida a humanidade. Mas o que é fácil de se ver é que, apesar de Eva ter cumprido seu papel, foi a morte que acabou sendo trazida. Portanto, como diz Bossuet, “A Abençoada Virgem (Maria) é a real Eva, a verdadeira mãe de todos os seres vivos”.

Bossuet propõe a seguinte comparação entre Maria e Eva na obra “meditations on Mary”:

  1. O trabalho da corrupção começou com Eva; O trabalho da regeneração começou com Maria;
  2. Um anjo da escuridão falou com Eva e prometeu a ela ser divina, igual a Deus; Um anjo da luz falou com Maria e disse que Deus estava com Ela;
  3. O anjo da escuridão incitou Eva a rebelião. O anjo da luz disse a Maria não temer;

Também São Gregório de Nissa (392 DC) contribuiu com outra boa razão: “Eva deu à luz Caim e com ele a inveja e o assassinato. Tu, em troca, darás à luz um filho que trará a vida e a incorrupção”.

E Tertuliano disse: “uma fé piedosa apagou a falta de uma credulidade audaciosa, e Maria reparou por sua crença em Deus o que Eva havia arruinado ao crer no diabo”.

Conclusão

Os antigos já diziam que os planos de Deus foram frustrados por Eva e Adão. A queda do paraíso é a razão pela qual vivemos como se tivéssemos uma guilhotina na cabeça, prestes a morrermos a qualquer instante. Não era pra ser assim. A imortalidade é a natureza da alma, que se alcança com pureza e serviço amoroso a Deus sem esperar nada em troca. Maria e Jesus trouxeram a forma perfeita de se atingir essa pureza e consequentemente a vida eterna.

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