Reflexões sobre a sexta dor de Maria

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Por Santo Afonso de Ligório. Essa é uma coleção de artigos sobre as sete dores de Maria. Neste texto falaremos das reflexões sobre a sexta dor de Maria.

Sexta dor de Maria: A lançada e a descida da cruz

Maria saúda as chagas de Jesus, como fontes de nossa salvação

Ó vós todos, que passais pela estrada, atendei e vede se há dor semelhante à minha dor (Lm 1,12). Almas devotas, escutai o que hoje vos diz a Mãe dolorosa: filhas diletas, não quero que procureis consolar-me, porque meu coração já não pode achar consolação na terra, depois da morte de meu caro Jesus. Se queres dar-me gosto, vinde e vede se houve no mundo dor semelhante a minha, ao ver como me arrebataram com tanta crueldade aquele que era todo o meu amor.

Mas, Senhora, já que não buscais consolo, mas antes sofrimento, eu vos direi que nem a morte de vosso filho findaram as vossas dores. Ainda hoje, daqui a pouco, sereis ferida dolorosamente por uma espada. Vereis uma lança cruel transpassar o lado de vosso filho, já sem vida. E depois tereis de receber, em vossos braços, seu corpo descido da cruz.

Estamos na sexta dor da pobre mãe de Jesus. Contemplemo-la com atenção e lágrimas de piedade. Até então vieram as dores cruciar Maria, uma a uma. Mas agora assaltaram-na todas juntas. Basta dizer a uma mãe que seu filho morreu para inflamá-la o amor ao filho que a deixou. Para consolo das mães atribuladas com a perda de algum filho, costumam pessoas recordar-lhes os desgostos que deles receberam. Porém eu, ó minha Rainha, se quisesse consolar-vos pela morte de Jesus, onde acharia algum desgosto dado por ele, para vo-lo recordar? Ah! Ele sempre vos amara, sempre vos obedecera e respeitara. Agora o perdestes. Quem há que possa exprimir vossa aflição? Exprimi-a vós mesma, que cruelmente a sofrestes!

Morto nosso Redentor, diz um piedoso autor, acompanharam-lhe a alma santíssima os amorosos afetos da excelsa Mãe, para apresentá-la ao Eterno Pai. Disse talvez o seguinte: “Apresento-vos, ó meu Deus, a alma imaculada do meu e vosso filho, que vos obedeceu até a morte; recebei-a em vossos braços. Eis satisfeita a vossa justiça e executada a vossa vontade; eis consumado o grande sacrifício para eterna glória vossa”.

Voltando-se depois para o corpo inanimado de seu Jesus: “Ó chagas, disse então. Chagas amáveis, congratulo-me convosco, porque por meio de vós foi dada a salvação ao mundo. Permanecereis abertas no corpo de meu filho, como refúgio de todos quantos recorrem a Vós. Quantos por vós hão de receber o perdão de seus pecados e inflamar-se no amor do Sumo Bem!”

Sexta dor de Maria: a dolorosa cena do lanceamento

Porque não ficaste desfeita a festa do dia seguinte, sábado pascal, exigiram os judeus fosse logo retirado da cruz o corpo do Senhor. Mas como não podiam retirar o sentenciado antes de estar certamente morto, vieram alguns algozes, com pesadas clavas de ferro e quebraram as pernas dos dois ladrões crucificidados. Aproximaram-se também do corpo de Jesus. Enquanto chorava a morte de seu filho, vê Maria esses homens armados que se chegam a Jesus. Estremece de terror, mas logo lhes diz: Ai, meu filho já está morto! deixai de ultrajá-lo ainda mais, e ainda mais me atormentar o pobre coração de mãe desolada!


Pediu que não lhe quebrassem as pernas, observa Boaventura Balduário. Mas enquanto assim falava, ó Deus! vê um soldado erguer com ímpeto a lança e com ela abrir o lado de Jesus. “Um dos soldados lhe abriu (a Jesus) o lado com uma lança, e imediatamente saiu sangue e água” (Jo 19:34). A esse golpe de lança tremeu a cruz, e o Coração de Jesus foi dividido, como por revelação o soube Santa Brígida. Saiu sangue e água, pois do primeiro restavam apenas essas últimas gotas. Quis o salvador derramá-las para nos mostrar que já não tinha sangue que nos dar. Foi para Jesus a injúria desse golpe de lança, mas a dor sentiu-a a Virgem Mãe, diz Landspérgio. Querem os Santos Padres que tenha sido propriamente essa a espada predita a Virgem por Simeão. Não foi uma espada de aço, mas de dor que transpassou a sua alma bendita, no coração de Jesus, onde sempre morava.

Entre outros, diz S.Bernardo: “A lança que abriu o lado de Jesus transpassou a alma da virgem, que não podia separar-se do filho. Ao ser retirada a lança, revelou a Mãe de Deus a Santa Brígida, o sangue de meu filho tingia-lhe a ponta; parecia-me nesse momento que meu coração estava transpassado, ao ver que o do meu filho fora rasgado pelo golpe. E à mesma Santa, disse o anjo, que só por um milagre escapou Maria de morrer naquela ocasião. Nas outras dores a Virgem tinha o Filho a seu lado, mas nem semelhante conforto lhe resta agora.

A Mão dolorosa recebe nos braços o Filho sem vida

A atribulada senhora receava, entretanto, que fizessem outras injúrias a seu amado filho. Pediu a José de Arimateia lhe obstivesse, por isso, de Pilatos o corpo. Segundo o pseudo-Anselmo, Pilatos, compadecendo-se da Mãe, lhe concedeu o corpo do redentor. Eis que descem o Salvador da cruz em que morrera! Ó Virgem sacrossanta, destes com tanto amor vosso filho ao mundo, e vede como ele vo-lo entrega! Por Deus, exclama a Senhora, em que estado, ó mundo, me entregas o meu amado filho! Ele era o meu querido, branco e rosado (Ct 5,10); e tu me entregas negro pelas contusões e rubro não pela cor, mas pelas chagas que os cobristes? Era belo e ei-lo agora desfigurado! Encantava com seu aspecto, mas causa horror agora a quem o vê! Quantas espadas feriram a alma dessa Mãe, quando em seus braços depuseram o Filho descido da cruz! diz um autor sob o nome de S. Boaventura. Contemplemos o indizível sofrimento de uma mãe à vista do seu filho sem vida.

Conforme as revelações de S. Brígida, encostaram três escadas para descerem o corpo de Jesus. Primeiro desprenderam os santos discípulos as mãos, depois os pés e entregaram os cravos a Maria, como refere Metafrastres. Segurando o corpo de Jesus, um por cima e outro por baixo, o desceram da cruz.

Ergue-se a Mãe, relata Bernardino de Busti, estende os braços para o filho, abraça-o e senta-se aos pés da cruz. Contempla-lhe a boca aberta e os olhos obscurecidos; examina seu corpo rasgado pelas chagas e os ossos descobertos. Tira-lhe a coroa e vê que horríveis chagas os espinhos fizeram naquela sagrada cabeça. Olha finalmente as mãos e os pés transpassados pelos cravos e diz: “Ah filho, a que extremos te reduziu teu amor pelos homens! Que mal lhes fizeste para que assim te maltratassem? Tu me eras pai, irmão e esposo, fá-la dizer Bernardino de Busti; eras minhas glória, minha delicia e meu tudo”.

Filho, vê como estou aflita, olha-me e consola-me. Mas ai! não me falas mais, porque estás morto. E dirigindo-se aos instrumentos de martírio: ó espinhos cruéis, ó desapiedada lança, como pudestes assim atormentar vosso Criador? Mas por que acuso os espinhos, os cravos? Ah! pecadores, fostes vós que assim maltratastes a meu filho!

Queixas de Maria sobre os pecadores

Assim então Maria se queixou de nós. E se agora pudesse sofrer, que diria? Que pena sentiria, vendo que os homens, mesmo após a morte de Jesus, continuam a maltratá-lo e crucificá-lo com seus pecados? Nunca mais atormentemos, pois, essa mãe aflita! Se pelo passado a afligimos com nossas culpas, façamos agora o que ela nos diz. Mas que é que nos diz? “Tomai isso a sério, vós prevaricadores” (Is 46,8). Pecadores, voltai ao ferido Coração de Jesus; arrependei-vos, que ele vos acolherá. Pelo abade Guerrico, nos diz ainda a Senhora: Fugi de Jesus, vosso Juiz, para Jesus, vosso Salvador; fugi do tribunal para a cruz!

A Santíssima Virgem revelou a S.Brigida que, quando desceram seu filho da cruz, ela lhe cerrou os olhos, mas não pôde fechar os braços. Jesus dava-nos assim a entender que seus braços há de ficar sempre abertos para colher todos os pecadores arrependidos.

Ó mundo, continua Maria “eis que agora estás no tempo, no tempo de amor” (Ez 16,18). Meu filho morreu para salvar-te; já não é para ti um tempo de temor, mas de amor. É tempo de amares Aquele que tanto quis sofrer, para provar quanto te ama. O coração de Jesus foi ferido, diz S.Boaventura, a fim de nos mostrar pela chaga visível o seu amor invisível. E alhures o Santo faz Maria dizer: Se meu filho quis que lhe fosse aberto o lado para dar-te teu coração, é justo que lhe dês também o teu.

Se, portanto, quereis, ó filhos de Maria, achar lugar no Coração de Jesus, sem receio de repulsa, ide a ele juntamente com Maria, por quem alcançareis tal graça. Assim nos exorta Hubertino de Casale.

“Reflexões sobre a sexta dor de Maria” é um artigo parte de uma coletânea. Para ler as outras dores de Maria, acesse por aqui

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