Alegra-te Maria. Mas como?

Alegra-te Maria
Alegra-te Maria

Papa Francisco escreveu: perante a saudação do Anjo “Alegra-te Maria, o Senhor está contigo”, a mãe de Jesus ficou perplexa. Não entendeu muita coisa do que estava havendo, mas ao saber que vinha de Deus, aceitou.

Infelizmente sabemos que a aceitação de Maria não a cumulou de privilégios ou distinções, mas antes, predisse Simeão, a apunhalou com uma espada transpassada na alma (que de alegre nada parecia ser).

Alegra-te Maria: mas como alegrar-se?

Maria sofreu em duas das três etapas de sua convivência com Cristo: no início e no fim.

No início, logo no nascimento, não havia onde receber apropriadamente o filho. E se Maria fosse uma mulher ordinária, zombaria das palavras do anjo, pois como se alegraria numa condição daquela?

Se não bastasse, em seguida tiveram de fugir! Exilar-se em terra estrangeira com medo do genocídio e largar tudo para abraçar o desconhecido com uma criança recém-nascida, sem qualquer perspectiva futura. Mais uma vez ela poderia ter lembrado e duvidado do anjo: “Alegra-te Maria”. Mas como?

No fim, na terceira etapa da jornada, Maria também sofreu demais. O sofrimento da perda precoce de um filho em circunstâncias terríveis: crucificado e humilhado, ali, na frente dela que nada podia fazer a não ser assisti-lo passivamente ser abatido e achincalhado covardemente. E onde estava, naquele momento, o anjo para lhe dizer: “Alegra-te Maria”?

E não foi só. Maria teve tantos outros motivos para duvidar das palavras do anjo e até desistir do “sim” que lhe deu. Podia ter desestimulado o filho ou convencer-se a si própria de que não havia nada de divino em todo aquele sofrimento.

Mas eis que, entre as duas fases tão sofridas, houve um pedaço de tempo como um recorte da eternidade! Um espaço entre um sofrimento e outro o qual pode ser chamado de paz.

Esse espaço se chama Nazaré.

Primeiro de tudo temos que entender uma coisa: no céu espiritual, Cristo não nasce, nem é perseguido por Herodes. Não há exílio e também não há calvário. Não há perseguição, maldade, sofrimento nem morte. Só há alegria. Aquela alegria anunciada pelo anjo que Maria enfim experimentou enquanto Cristo crescia em “estatura, sabedoria e graça” (Lc 2:52).

Depois disso também devemos entender: Nazaré é um estado de espírito. Livre de contaminação, interesse, formalidade, pompa, riqueza, excelência e regime autoritário e servil. É um estado de amor puro, espontâneo, doce, delicado, sutil e ao mesmo tempo sincero e muito saboroso.

Pois é ali, em Nazaré, reflexo do Paraíso, o lugar em que tudo isso acontece.

Lá, mesmo um olhar de relance de Jesus dura uma eternidade, onde o tempo não passa porque na absorção em Cristo tudo é hoje e o que vem em seguida é sempre atual. Nunca cansa, nem enjoa e embora seja pleno de satisfação, de agradá-los nunca nos satisfazemos.

Não há preocupação (na plenitude, nada falta), nem ansiedade (pois atingimos a perfeição), medo (O que temer se não há morte, doença ou sofrimento?), mas há, por outro lado, um desfrute de amor em sua forma mais pura e sem condições.

Ali onde as atividades mais simples são admiradas e mesmo se repetidas parecem ser as primeiras. Sem formalidade e reverência, feito crianças espontâneas e desinteressadas que agem igualmente perante um rei ou um maltrapilho.

Ali oramos, cantamos, sorrimos, agradecemos, vemos juntos o pôr do sol, damos risada dos animaizinhos e recebemos os passarinhos em nossas janelas. Recebemos visitas e cozinhamos para recebê-las. Damos e recebemos presentes, hospedamos e cuidamos uns dos outros. Trocamos confidências, conselhos e aprendizados. Tocamos instrumentos e nos divertimos. A Nazaré terrestre é um oásis divino no meio de um reino estranho e hostil. É uma pausa nos conflitos, o ar fresco das montanhas, a nascente de água cristalina que brota das pedras a saciar a sede dos doces devotos chegados do deserto. (Pois os salvos descansarão de suas fadigas – Ap 14.13)

Uma terra…

onde respiramos a bem aventurança de estarmos junto a Cristo a todo instante, auxiliando Maria e vivendo a felicidade da paz e da harmonia, sem velhice, morte, perseguição ou doença. Só alegria, risos e absoluta tranquilidade e amor. Uma terra de vivacidade, energia, equilíbrio, rico em sutis interações espirituais.

Não há culpa, pecado, peso, remorso, arrependimento, nem qualquer emoção negativa, porque lá a mente não trabalha com decepções e frustrações. Não há tentações, vícios, condicionamentos ou lutas, porque já somos completos em Cristo e nossa luz reflete a dele por contemplação. (Apocalipse 21:3-4)

Essa terra de Nazaré é a face amorosa de uma Nova Jerusalém cheia de doçura e amor dos mais íntimos e familiares. É a morada dos devotos mais dedicados, como Teresinha do menino Jesus, que tantas vezes imaginou-se lá. Ou como nós, pecadores, que tanto lutamos nesta terra para almejar ter no coração uma porção desse solo. Pois apesar de ser o destino das almas pós-morte, já se é possível sentir daqui o aroma de lá, pois como Cristo nos disse: o reino de Deus está dentro de nós (Lucas 17:20,21), ou seja, Nazaré, além de existir na eternidade, também se manifesta dentro dos nossos corações agora mesmo, se a graça assim nos favorecer.

Pois então, que Maria e Jesus possa nos abençoar com a realização dessa Verdade e nos introduzir pouco a pouco nesse mistério incrível que é a terra sagrada da pureza e bem aventurança eterna.

Que possamos um dia chegarmos, após atravessarmos este deserto, às portas do casebre de pedras, onde vemos José trabalhar, tocarmos o sino e sermos recebidos por um largo sorriso de Maria, que se apressa ao chamar o filho que logo vem nos abraçar e dizer: por que demorou tanto?

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