A fuga para o Egito (parte III)

fuga para o Egito
fuga para o Egito

Parte III – Terceira parte da peça “A fuga para o Egito” escrita no outono de 1895 por Santa Teresinha do Menino Jesus.

Cena 4 – A fuga para o Egito: a caverna.

A caminho do Egito, a Sagrada Família pede abrigo em uma caverna onde moram uma moça chamada Suzana, o esposo (que adora o Deus Mercúrio e faz assaltos na região), e o filho do casal, Dimas, que tem lepra.

Suzana vivia se lamentando e orava todos os dias: que eu fiz para estar mergulhada nesta dor? Ah, se eu conhecesse onde Deus reside! Ainda que fosse preciso atravessar os mares, iria me lançar aos seus pés e pedir-lhe a vida do meu filho. Deus não pode rejeitar a oração de um coração de mãe.

Certo diz ouve alguém batendo levemente à porta. Suzana ergue bruscamente a cabeça e diz com voz firme:

Quem é?

São José diz:

Pobres viajantes cansados que vos pedem hospedagem para esta noite.

Suzana:

Esta caverna não é uma hospedaria. Ide adiante. Não alojamos viajantes.

A Santíssima Virgem:

Se sois mãe, em nome de vosso filho, não recuseis o abrigo que pedimos.

Suzana entreabre a porta. Percebendo que Maria carrega o menino Jesus, diz com uma voz enternecida:

Em nome de meu filho, não posso recusar nada. Vê-se que sois também mãe, pois conheceis muito bem a fraqueza de um coração materno.

A Sagrada Família entra na caverna.

Suzana:

Tendes sorte por eu estar sozinha. Se meu marido estivesse aqui com seus companheiros, poderia vos ter tratado mal. Mas eles não devem voltar antes do raiar da aurora; até lá, ninguém vos incomodará.

São José:

Obrigado. Sois muito bondosa. Deus haverá de vos recompensar pela vossa caridade.

Suzana:

Quem é ele, este Deus que me falais? Desde há muito tempo desejo conhecê-lo.

São José:

Oh, mulher! Se soubésseis o nome de quem acaba de entrar em vossa caverna… Se conhecesseis o menino que Maria aperta contra seu coração…

Susana se aproxima de Maria

Como é belo o vosso Menino! Por que, então, o expondes no deserto às intempéries do tempo?

A Santíssima Virgem:

Um assunto importante nos forçou a deixar Nazaré para irmos morar no Egito. Compreendeis quanto sofro por ver meu filho sem abrigo e tremendo de frio quando os ventos gelados da noite levantam as areias do deserto ou quando não encontro uma única palmeira que possa protegê-lo do ardor do sol do meio-dia…

Susana:

Deve ser mesmo um assunto muito importante pelo qual fazeis uma viagem assim tão penosa. Se for para buscar fortuna no Egito, não vos animo a continuar vosso caminho. Parece que os pobres são ainda mais infelizes naquele país do que no nosso. Além disso, deves saber que a miséria segue por toda parte aqueles que nasceram sob sua estrela. O único meio de escapar dela é revoltar-se contra os ricos e tomar-lhes à força as riquezas que estão injustamente repartidas.

São José diz:

Não é da pobreza que fugimos. A felicidade não consiste em possuir riquezas, mas em submeter humildemente a própria vontade à vontade de Deus que doa a cada um aquilo que sabe ser necessário para a salvação de sua alma.

A Santíssima Virgem:

Pobre mulher! Como podeis apegar vossa alma a todas essas riquezas adquiridas injustamente? Como não colocais toda a vossa alegria alegria em formar o coração deste belo menino que o Bom Deus vos confiou? (Maria olha para o filho de Susana).

Susana, tristemente:

Longe de ser minha alegria, esta criança é a causa de minha dor. É ela que me impede de gozar dos bens imensos que me circundam. Com que prontidão vos daria tudo o que possuo se pudésseis salvar a vida do meu filho!

São José, aproximando-se do menino:

Mas o que tem vosso filho? É lindo como um anjo e parece dormir tranquilamente.

Susana:

Sim, Dimas é lindo. Mas não vedes que esta brancura de neve que se alastra sobre seu rosto é a lepra? (Susana chora).

A Santíssima Virgem, afastando docemente a mão com que Susana cobriu seu rosto:

Não choreis, pobre mãe! O Bom Deus é bastante poderoso para curar vosso filho. Ele recompensará a hospitalidade que nos dais esta noite.

Susana:

Não sei onde mora esse Deus que dizeis ser bom. Vós que o conheceis, – oh, eu vos peço! – suplicai-lhe que cure meu filho e vos darei tudo o que desejardes!

A Santíssima Virgem:

Prometo-vos rezar por vosso filho. E não peço em troca senão um pouco de água pra lavar Jesus. Vede como seu rostinho está coberto de suor e poeira…

Susana:

Devia ter pensado em oferecer-vos este serviço. (Dirige-se para o fundo da caverna e mostra uma espécie de pequena bacia cavada na rocha). Aqui! Esta é a pequena banheira que serve para Dimas. Podeis lavar nela o vosso Menino. Mas não tendes medo que ele pegue a terrível doença do meu filho?

A Santíssima Virgem:

Não. Não tenho receio. Sei que Jesus veio à terra para curar o vosso filho, tomando sobre sua sua fraqueza e enfermidade. Agora Ele é um fugitivo, semelhante a quem viaja sem ter, para reclinar a cabeça, sequer uma pedra, pois os judeus não reconhecem seu Rei… Mais tarde haverão de considerá-lo como um leproso e seu rosto estará escondido para eles (Maria pronuncia essas palavras com um tom profético. Dor e alegria misturam-se em seu olhar, que mantém fixo sobre Jesus. Depois, olhando para Susana, acrescenta:) Mas também o vosso menino será revestido dos encantos que meu filho terá perdido por ele… E terá um lugar com Ele em seu reino eterno.

Susana, profundamente comovida.

Não posso compreender vossas palavras. Como poderia vosso filho restituir a saúde a Dimas? Afinal, não é tão frágil quanto ele? Sem dúvida, vejo resplandecer em vosso olhar e no dele um brilho desconhecido… Mas, que podeis fazer por mim, vós, pobres viajantes, que fostes obrigados a buscar refúgio numa caverna de ladrões?

Susana continua:

Ah! Começo a acreditar que sois gente misteriosa. A nobreza de vosso porte, vosso ar de grandeza revelam uma origem ilustre. Não dois descendentes de algum monarca, já que há pouco me falastes de um reino onde meu filho teria um lugar com o vosso?

A Santíssima Virgem:

O reino de Jesus não é deste mundo; se seu reino fosse deste mundo, Ele possuiria palácios como os reis da terra, e valentes guerreiros combateriam por Ele. Agora, não podeis compreender o sentido de minhas palavras, mas compreendereis um dia.

Maria, tendo derramado água na bacia, lava o Menino Jesus.

Essa foi a III parte da peça “A Fuga para o Egito”. Para ler a primeira e segunda parte da peça clique aqui. Em breve publicaremos as demais. Inscreva-se e receba novos artigos.

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